terça-feira, 21 de outubro de 2008

O presente...


Secretamente o meu calendário vem contando os dias para o teu aniversário. A prenda há muito que se encontra embrulhada, esperando, com ânsia, que no dia em que a desembrulhes eu renasça de novo. Planeie cada pormenor, cuidei de cada pequeno detalhe, cada cor, cada textura, cada som, cada toque, cada melodia. Nada foi deixado ao acaso.
Com o meu melhor sorriso, dirijo-me a ti, que me esperas expectante por descobrir e abrir o mistério que tanto cuidado tive em guardar. Entrego-te em mãos o teu presente. Beijo-te uma última vez. Sussurro-te ao ouvido o que este ano não gravei num cartão, como aqueles que fazia acompanhar com todas as outras prendas: “Hoje presenteio-te com o que mais desejas, com tudo o que mais me pediste. Feliz Aniversário!”
Viro-te costas antes mesmo de poderes abrir a prenda que depositei nas tuas mãos. Percebeste nesse preciso momento o mistério e o significado que a minha prenda encerrava. Atrás de mim, acompanhando os meus passos, ecoa apenas o som do papel a ser rasgado, o som de uma corda a rodar, a rodar, a rodar… No preciso momento em que a porta se fecha entre nós, ouve-se já distante, o som de uma música que nos acompanhou e que cuja melodia tem servido de compasso aos teus pedidos, aos teus desejos, às tuas vontades, às tuas exigências…
Hoje presenteio-te com uma caixa de música… com a TUA música, com as TUAS melodias, com as TUAS cores, forrada com as TUAS texturas. No centro uma imagem minha, a de uma bailarina que espelha a sua imagem num espelho, que dança confinada à corda que lhe dás, ao som da música que impões, aos movimentos que tanto coreografaste… unicamente uma representação da mulher que até hoje fui para ti, uma criação tua. Presenteio-te com uma caixa de música que encerra tudo o que querias que tivesse continuado a ser para ti.

Jane

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

reviravolta...


Calmamente escuto uma melodia que nada tem de inócua. Aumento o volume para me envolver na entoação que lentamente me invade. Fecho os olhos e cantarolo. Sou avassalado por um filme em que cada cena parece preencher as palavras que a música solta. Entendo, então, os compassos que lentamente ouço, os quais me mostram o que, nas entrelinhas, me tentas dizer. Mergulho num mar de lágrimas. Gota a gota, deslizando pela minha face, morrem nos meus lábios, quando me beijas ardentemente. Choro compulsivamente. Esta seria mais uma tentativa tua de replicar o jogo que tanto estimas. Também esta seria mais uma oportunidade para que fosse o elo mais fraco. Seria… se entretanto não tivesse baixado o volume. Se não tivesse limpo as lágrimas que teimaram em cair. Se não te tivesse apagado da vida que pretendo continuar…sozinho!


Draco

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Do corpo...


Chegava como se este espaço fosse seu, como se o conhecesse desde sempre. Afinal conhecia todas as portas desta casa. Conhecia o bater da chuva nas vidraças e os lugares onde o silêncio era insidioso e se fundia e escondia em vícios solitários.
Dirigia os seus passos à sala à procura do fogo que lhe alimentava o corpo e encontrava a lareira apagada. No lugar do fogo encontrava cinza e mesmo assim estendia as mãos para se aquecer. Acendia velas e incensos e no desencontro das sombras deixava-se enfeitiçar pelos aromas inebriantes do desejo. A sala já era sua, geometricamente sua, e não lhe bastou. Procurava mais dele. Sempre procurou mais…demais.
Aproximou-se das janelas e abriu-as de par em par para que ele visse a dança da lua. E como se ela se apropriasse das palavras, disse que o amor dele era como as fases da lua. E que só ele não percebia isso. Disse-lhe que ele foi quarto minguante de amor enquanto se subtraía à paixão e ele, desconcertado pela veracidade do que se negava a reconhecer, recusou segui-la pelo corredor.
Ela desafiava todas as defesas dele e aproximou-se passo a passo olhando-o nos olhos. Depositou na boca dele o sabor das suas palavras com o seu travo a canela e ele destilava a entrega gota a gota apenas por ela, enquanto o seu amor se erguia em lua nova do sentir. Ela concedeu-lhe a sua mão, convidando-o a conhecer novas fases da lua e ele seguiu-a sem olhar para trás. Foram quarto crescente de desejo e chegaram à derradeira divisão. O quarto. E ele sempre soube que ela acabaria por lá chegar
Cruzaram a porta e o tempo e o espaço foram eles. Nada mais que eles, dois corpos desnudados que se reconheciam em luas cheias de fogo e mar. Pertenciam-se mutuamente e naquele instante eram suor, beijos e prazer. O odor dos seus corpos fundia-se sempre que se entregavam à busca do outro e ambos sabiam que já tinham esperado tempo demais.
Ela aconchegou-se no peito dele e num murmúrio disse-lhe “o teu corpo é a tua casa e eu já entrei nela”. Ele afagou-lhe os cabelos, beijou-a lentamente e olhando-a nos olhos respondeu-lhe “Tu sempre pertenceste a este lugar”.

Walter

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ampulheta...


Viraste a ampulheta. A areia que a incorpora começou, lentamente, a cair para o lado oposto. Aos poucos, os grãos de areia começaram a sobrepor-se uns aos outros numa luta desenfreada, tal como nós! Podíamos permitir-nos um toque suave, um beijo quente, um abraço apertado, assim como a areia podia unir-se, somente, para contar o tempo…

Os grãos de areia continuam a acumular-se no fundo da ampulheta! Tornas a virá-la numa tentativa de ganhares tempo… esqueces, porém, que o caminho que traçámos não retorna e que o tempo continua a correr!

O tempo deixou marcas que dificilmente apagarei de dentro de mim, ao contrário de ti que foste riscada da vida que outrora partilhei contigo…
Draco

terça-feira, 8 de julho de 2008

badalada...


Ao longe ecoa o som de uma badalada! Sou, então, invadido por um misto de emoções, as quais cravam em mim marcas que outrora te pertenceram. Aquelas marcas que pretendes dar a conhecer sem, no entanto, seres tu a demonstrá-las.. Raiva, intolerância, frieza, jogaram no lado oposto da minha ternura e sinceridade, até agora! Sempre jogámos de pontos opostos... Envolvemo-nos em jogos de sedução, mas até nesses tu tentaste manipular-me. Tinhas que vencer, não perdoavas!

Novamente o som de uma badalada.. A derradeira! O toque final para anunciara tua vitória enquanto jogadora, mas derrota enquanto ser humano.

Draco


sábado, 14 de junho de 2008

Memórias Inventadas...


Sentada no banco do jardim inventava memórias de momentos a dois, recriando-as em todas as palavras, juntando-lhe aromas e sonoridades. E se hoje são de café e do bater das chuvas nas vidraças, amanhã jurará a pés juntos que são certamente de orquídeas e de violinos.
Recorda todos os lugares que não visitou, recorda o por-de-sol em Viena que, segundo ela, se assemelha tanto ao que vê da sua janela. Assegura que os jardins de Paris são eternos e que os candeeiros nas ruas se acendem e apagam consoante a sua vontade. Diz ela a quem passa que ainda reconhece o som dos passos dele na calçada, um a um como se de uma sonata de encontros se tratasse.
Sentada no banco do jardim ela recorda-se dele, de todos os seus rostos e do modo como ele a embriagava em promessas futuras. Recorda o tempos dos afectos que apenas existem encerrados em si enquanto este dia durar, porque as suas memórias são apenas fugazes. Sentada no banco de jardim inventa memórias e ninguém a quer ouvir. Ninguém quer ouvir a insana e pactuar com a sua loucura. Sentada nesse mesmo banco de jardim inventa memórias de tempos idos, inventa sentimentos correspondidos e é feliz.

Walter

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Armadilha...

À minha entrada desembainhaste as espadas e ergueste-as para mim. A minha recepção já estava prevista e antecipada. Planeaste a minha chegada e foste preparando todos os cantos e armadilhando todos os meus passos. Foste-me seduzindo até ti com a doce ilusão que me queiras, que me protegias, de que me defenderias… mesmo de mim própria. Tudo ilusão.
À minha chegada não quis ler os sinais. Recusei-me e ver o que me rodeava. Não dei importância ao silêncio que impuseste à minha aproximação. Não quis ver a ausência que me cercava e fui avançando, abrindo porta por porta até ti. Com passos decididos, segura de mim, ignorando as armadilhas que a cada porta aberta me impediam de voltar atrás! Empurrei a última porta que nos separava e com ela as últimas barreiras que impus para tu chegares a mim… anunciando a minha entrega plena. O meu olhar encontra o teu. No teu olhar espelha-se a dor, o sofrimento de um calculismo que fere, com uma mistura de ironia e de prazer do teu triunfo aquando da minha chegada até ti. Nele também consigo ver o brilho das lágrimas, como o reflexo das tuas espadas, que pretendes conter. Permanecemos imóveis, com as espadas entre nós. Pergunto-me onde desferirás os primeiros golpes…e dou por mim a pensar que ainda as lâminas das tuas espadas não me tocaram e já sinto o impacto do mais profundo e mortal dos golpes… em ti!
Jane