quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Puro interesse...


A estranheza do teu olhar sufoca-me, mas acalenta-me saber que tiro partido dele em segredo. Possuo-te por cada momento em que te envolvo nesta minha teia de enganos e de beijos venenosos com sabor de entrega. Recrio-te neste espaço que te concedi, como se te concedesse a chave da minha casa e deixasse a chave por dentro. Como se te prometesse deixar a porta encostada e te obrigasse a tocar à campainha para anunciar a tua presença no meu reduto.
Andamos há demasiado tempo nesta batalha incessante, neste silêncio cúmplice que te aconchega e que me serve... essa falta de palavras que tanto te protege como me sufoca. Desafiamo-nos mutuamente…nesse desafio desigual, que apenas de comum tem a posse embora nunca te permita possuir-me. Nunca o chegarás a saber. É como se me vestisse de nevoeiro e te permitisse guardar-me ainda que por breves e convenientes segundos. No entanto, é tão ténue a tua presença em mim, como se pintasses a aguarela e apenas tu não parecesses ver a palidez das cores.
O nosso campo de batalha está repleto dos laços de batalhas antigas… laços que entrelaçamos para que as nossas cicatrizes permaneçam… mas os meus laços são escorregadios nos teus, as cicatrizes que te infligi são mais profundas… apenas nos meus laços permanecem os nós cegos e os teus laços em mim têm demasiadas pontas soltas cuja fragilidade é gritante.


Pumpkin, Walter, Draco & Jane

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Da dança...


Da fusão do preto com o rubro da paixão. Com a mestria do pasó doble ouvi-te chegar com a paixão estampada nos olhos e o desejo tatuado no corpo. E de rubro te aproximas, sensual e envolvente, como se soubesses que sou teu. E eu olho-te nos olhos, altivo e desafiante, como se desconhecesse porque estavas ali.
A melodia escorre em gotas de suor banhando o chão que pisamos. Levantas a cabeça procurando o meu corpo. A minha mão encontra a tua e diminuímos a distância entre nós. Sentes o crescendo da intensidade com que te agarro contra mim? Com que mergulho no teu pescoço e te respiro ao ouvido, para logo em seguida te abandonar? Porque te abandono neste palco a rubi-negro tingido, insinuando-me a ti prostrada a meus pés enquanto te olho nos olhos.
E logo te levanto, trago-te a mim e conduzo-te sensualmente na sucessão rítmica do meu corpo, porque eu não sei estar sem ti. E tu segues-me nesta dança em que te entregas nas minhas mãos. Porque os meus passos são os teus passos e enquanto dois somos um só. O mesmo corpo. A mesma presença. Porque se nos subtraímos aos outros encontramo-nos cada vez mais um no outro.
Conduzo-te em passos largos que apenas tu consegues acompanhar. Somos sujeito e predicado do desejo e pedimos mais um do outro. Crescente intensidade da música que nos embala inebriados como se tudo fosse aqui e agora. É electrizante a tensão entre nós no permanente desafio de quem cai primeiro em tentação e beija o outro. Duas faces cada vez próximas que se reconhecem na geometria do sentir e do desafio.
A música está prestes a terminar, abandono-te no palco enquanto rodopias e eu aproximo-te de ti...sussurro no teu ouvido tudo o que tenho para te dizer e passeio os labios pela tua face. Lentamente com a certeza de quem conhece o destino, deposito na tua boca o beijo que só tu podes receber e retribuir.

Walter

sábado, 26 de janeiro de 2008

Partida...



Marquei o bilhete de ida para esse lugar que prometia a tua entrega. Parto, ingenuamente, na vasta esperança de te encontrar em mim, como se tu tivesses escolhido o mesmo lugar. Como se tu cumprisses as tuas promessas.
Indago cada carruagem que me pertence, onde me reconheço em cada compartimento e em cada janela. Perscruto cada carruagem por cada olhar minucioso, tomando-lhes o pulso a fim de encontrar vestígios teus, aqueles que juraste pertencer a ambos, como se tu e eu nos fundíssemos num só corpo. Algo que, involuntariamente, pudesses ter deixado e que te ligasse a mim. Afinal sempre pensei que estarias em mim como eu estou em ti. Chamar-me-ás ingénuo certamente, enquanto eu apelido de cegueira todas as vezes em que justifiquei o teu desencontro que julguei ser casual. Uma vez mais. Apenas e só uma vez mais.
Examino todos os pequenos cantos, agora despidos da tua presença e vestidos com as teias de aranha que pontuam a tua ausência. A tua ausência em mim. Tudo aquilo que agora me permites pertencer.
Além da ausência que pintaste em mim, desejas que te empurre para o poço do esquecimento, aquele cujas paredes são despidas de reentrâncias para que nada nos prenda, aquele a que me votaste. Esqueces-te, porém, que fui eu o primeiro a cair. Nunca me permitiste fazer o que já fizeste há muito. A tua viagem já estava marcada e eu nunca consegui comprar o bilhete de regresso.

Draco & Walter

Xeque-mate


Lentamente fomos movendo as peças. As brancas contra as pretas, os movimentos de defesa e as manobras de ataque, tudo jogámos nesse tabuleiro de vidro feito. Nesse tabuleiro onde nos dispusémos de lados opostos. Engraçado como não percebi que jogámos muito mais que uma partida. Jogámos também os momentos e as feridas antigas, bem como os sorrisos e as promessas de amanhã.
Primeiro movemos os peões em movimentos de reconhecimento e da busca das ressonâncias do que era meu em ti. Depois as jogadas mais arriscadas, o mostrar das fragilidades e o cometer dos erros. Espiámos os movimentos como estrategas que somos, espiámos os movimentos habituais e a melhor maneira de nos derrotar. Como se pudéssemos expiar as nossas falhas inflingindo a derrota no outro.
As peças foram sendo movidas e jogada por jogada o tabuleiro foi ficando vazio. Passo a passo aguardámos pelos erros do outro. No decorrer da partida, deixaste cair o tabuleiro, rolaram as peças que se dispersaram no espaço dos afectos e se misturaram com os resquícios de vidro que nos feriram. Não sei distinguir as minhas peças das tuas, não sei apontar o que ainda é teu em mim. Queria dizer-te que, apesar de tudo isto, o jogo terminou. Da minha boca, selarei a minha vitória com a supremacia de um Xeque-mate. Virar-te-ei as costas e irei procurar um adversário que não deixe o tabuleiro escorregar, propositadamente, entre as nossas mãos.

Walter

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Sótão...

No dia em que subiste as escadas e abriste a porta do sótão deparaste com a privacidade do silêncio e dos segredos. No dia em que subiste as escadas contra a minha vontade, deixaste a porta aberta de par em par e permitiste que os teus olhos se habituassem à escuridão e o teu corpo ao cheiro de humidade e de vidas passadas.
Nesse lugar que conheceste contra a minha vontade, violaste o baú antigo onde guardei os brinquedos estragados, as fotos onde nos retratámos a preto e branco e os momentos que nos pertenceram. Nesse lugar sentaste-te na velha poltrona de veludo vermelho ou que outrora fora vermelho e à média luz passaste os teus dedos pelas molduras e pelos pedaços de cristal do pingente que te ofereci e que fizeste questão de o partir na minha frente, num gesto de provocação declarada. Já de pé remexeste nas gavetas onde, um dia, marcaste a tua presença com o teu cheiro e presença e deixaste-as viradas no avesso das palavras e dos lugares onde os nossos corpos se tocaram.
No dia em que subiste as escadas, dobraram os sinos em agonias de bronze, acendeste velas para queimar o que sobrou de mim em ti e nesse teu auto-de-fé, revolveste o que sobrou do único espaço que não te concedi e, antes de sair, deixaste a tua boneca preferida sentada na poltrona bem de frente para a porta, para me recordar que aquele espaço nunca deixaria de ser teu.

Walter

Não vás...


Envolto no silêncio que a tua ausência acarreta… sozinho. Entre lençóis e cobertores procuro-te. Preciso de ti, mas não te encontro. Estendo a mão e por momentos consigo ter-te na minha mão. Beijo-te… Deixo os meus lábios tocarem os teus, num toque ténue que anuncia a partida de um de nós. Cruzamos olhares e uma vez mais as nossas mãos entrelaçam-se, num gesto de partilha e ao mesmo tempo de recusa… Não vás…


Draco

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Após ...


De olhares brilhantes e cabelos ao vento desfrutavam da paisagem, no entanto, a dúvida pairava nas suas cabeças… o que iria acontecer após este ou aquele momento?

Eram deveras felizes, só não o eram mais, por acreditarem que não conseguiriam lidar com os enigmas do futuro… Apesar de distante, este era vivido por antecipação, como algo adquirido à partida… não havia lugar para ilusões, surpresas ou mistérios… tudo era milimetricamente planeado com o intuito de não falhar, o futuro incerto amedrontava-os…

Toda a vida assim foi, de braços dados, caminhando pela vida, abriam portas à felicidade… sentiam-se seguros, amavam-se com paixão, com âmago… juntos eram tudo, perfeitos… sozinhos não eram ninguém. Mas, incessantemente questionando o passo a dar em seguida, não queriam dar um passo em falso que arruinasse tudo até aí conquistado. Porém, o cansaço apoderou-se e decidiram começar a viver na incerteza, na escuridão… que mal faria? Se se perdessem no caminho da vida, certamente encontrariam um percurso alternativo, porventura mais longo e doloroso… mas porque não arriscar? Assim foi… e repentinamente a vida atraiçoo-o… a força que lhe permitia viver, o ar que lhe permitia respirar, tinha fatalmente sucumbido, lenta mas derradeiramente. A traição pela vida era tal, que a dúvida deu lugar a uma certeza insípida e voraz… nunca tinha pensado nesse “após” tão triste e ensurdecedor… afinal tudo o que tinha de mais precioso era agora apenas uma ilusão… um “nada” de certezas! Não suportando esta crua realidade, cedeu perante a vida… atrás dela.

Pumpkin