terça-feira, 8 de julho de 2008

badalada...


Ao longe ecoa o som de uma badalada! Sou, então, invadido por um misto de emoções, as quais cravam em mim marcas que outrora te pertenceram. Aquelas marcas que pretendes dar a conhecer sem, no entanto, seres tu a demonstrá-las.. Raiva, intolerância, frieza, jogaram no lado oposto da minha ternura e sinceridade, até agora! Sempre jogámos de pontos opostos... Envolvemo-nos em jogos de sedução, mas até nesses tu tentaste manipular-me. Tinhas que vencer, não perdoavas!

Novamente o som de uma badalada.. A derradeira! O toque final para anunciara tua vitória enquanto jogadora, mas derrota enquanto ser humano.

Draco


sábado, 14 de junho de 2008

Memórias Inventadas...


Sentada no banco do jardim inventava memórias de momentos a dois, recriando-as em todas as palavras, juntando-lhe aromas e sonoridades. E se hoje são de café e do bater das chuvas nas vidraças, amanhã jurará a pés juntos que são certamente de orquídeas e de violinos.
Recorda todos os lugares que não visitou, recorda o por-de-sol em Viena que, segundo ela, se assemelha tanto ao que vê da sua janela. Assegura que os jardins de Paris são eternos e que os candeeiros nas ruas se acendem e apagam consoante a sua vontade. Diz ela a quem passa que ainda reconhece o som dos passos dele na calçada, um a um como se de uma sonata de encontros se tratasse.
Sentada no banco do jardim ela recorda-se dele, de todos os seus rostos e do modo como ele a embriagava em promessas futuras. Recorda o tempos dos afectos que apenas existem encerrados em si enquanto este dia durar, porque as suas memórias são apenas fugazes. Sentada no banco de jardim inventa memórias e ninguém a quer ouvir. Ninguém quer ouvir a insana e pactuar com a sua loucura. Sentada nesse mesmo banco de jardim inventa memórias de tempos idos, inventa sentimentos correspondidos e é feliz.

Walter

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Armadilha...

À minha entrada desembainhaste as espadas e ergueste-as para mim. A minha recepção já estava prevista e antecipada. Planeaste a minha chegada e foste preparando todos os cantos e armadilhando todos os meus passos. Foste-me seduzindo até ti com a doce ilusão que me queiras, que me protegias, de que me defenderias… mesmo de mim própria. Tudo ilusão.
À minha chegada não quis ler os sinais. Recusei-me e ver o que me rodeava. Não dei importância ao silêncio que impuseste à minha aproximação. Não quis ver a ausência que me cercava e fui avançando, abrindo porta por porta até ti. Com passos decididos, segura de mim, ignorando as armadilhas que a cada porta aberta me impediam de voltar atrás! Empurrei a última porta que nos separava e com ela as últimas barreiras que impus para tu chegares a mim… anunciando a minha entrega plena. O meu olhar encontra o teu. No teu olhar espelha-se a dor, o sofrimento de um calculismo que fere, com uma mistura de ironia e de prazer do teu triunfo aquando da minha chegada até ti. Nele também consigo ver o brilho das lágrimas, como o reflexo das tuas espadas, que pretendes conter. Permanecemos imóveis, com as espadas entre nós. Pergunto-me onde desferirás os primeiros golpes…e dou por mim a pensar que ainda as lâminas das tuas espadas não me tocaram e já sinto o impacto do mais profundo e mortal dos golpes… em ti!
Jane

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Nudez...


Despe as roupas que te cobrem a pele que escondes. Despe-as e sente a nudez da tua pele, aquela pele que toco com os dedos e os lábios lentamente. Despe essa pele e sente a minha na tua. Rasga a tua pele, amor. Rasga-a que eu cuido do teu corpo, protejo e cuido como uma flor delicada que renasce sempre que semeada pelas minhas mãos.
Walter

sábado, 12 de abril de 2008

Tango...um pensamento que se dança



O meu olhar elegeu-te entre os demais num embalo da melodia de um tango antigo escutado entre paredes de vermelho velho.
Desafias-me com os teus passos sedutores. Também eu quero conduzir, sentir que tenho o poder de controlar o teu corpo … mas hoje és tu que comandas e escolhes sentido e direcção que tão bem conheces e que me prendem a ti. Entras no jogo de cintura que a música pede e rodeias-me num ritmo tão apaixonado que me é impossível resistir-te. Os teus olhos fitam-me, o teu corpo deseja-me. É impossível negares, de que adiantaria? É por demais evidente. Deslizas sobre mim, o teu corpo insinua-se de modo provocante, erótico até. Esta dança há muito que deixou de ser só isso … queres-me por inteiro. Nada mais posso fazer, se não apenas ceder à tua vontade mais íntima … vontades que se sobrepõe à minha. O meu corpo obedece-te e entrega-se ao teu de uma forma cega. Denuncio-te mais do que aquilo que gostaria que soubesses. Conheces-me, assim, entre passos decididos e uma entrega definida pelo toque. Antevemos o final da música e a cada nota que se sucede vamos possuindo passos pouco explorados um do outro a um ritmo alucinante. A música termina e com ela o fim do nosso encontro … sem que tenhamos aproximado os nossos lábios.


Jane, Draco & Pumpkin

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ausência...


Para a despedida uma garrafa de whisky velho, um copo e duas pedras de gelo. Mais um copo, depois outro e ainda mais outro bebidos de um trago só. Puro malte que me escorre na garganta e que me queima por dentro.
Sou eu e a negação da tua falta que se vai diluíndo em partes desiguais de gelo e de destilação alcoólica. Sou eu contigo em mim, enquanto me dirijo à janela para ver se vais chegar.
A cabeça a andar à roda e as recordações do que deixaste desaparecem, desvanecem-se e recriam-se sem terem deixado de existir. O teu maço de cigarros meio vazio sobre a mesa, o livro aberto e a tua ausência no sofá que vai diminuíndo a cada copo que passa. Agora já sem gelo, a bebida quer-se pura, assim como as emoções que ainda me fazes sentir.
O telefone que não toca e é ao seu silêncio autista que brindo com ironia. O copo que escorrega das mãos, o mesmo copo que se parte aos meus pés. Amanhã limparei o chão e vou varrer os vidros estilhaçados, assim como espero que regresses amanhã.
Acendo um dos teus cigarros, a nicotina funde-se com o whisky sorvido directamente da garrafa e que me escorre pelo queixo. Mais uma hora que se extingue, sento-me nas escadas em frente à porta, deixo a garrafa descansar ao meu lado e espero por ti. Não chegas, esvazio a garrafa e tu não passas duma vaga memória.
Deito-me no sofá para te ouvir chegar porque não quero que me vejas nas escadas. Falta-me o discernimento e faltas-me tu. Amanhã não virás e no teu lugar estarão duas dores. A dor de cabeça que não suprime a dor provocada pela tua ausência.

Walter

terça-feira, 1 de abril de 2008

Hábito...


Estendeu a mão à espera que esta fosse agarrada outra vez, como tantas vezes fora. Estendeu a mão porque ainda sentia a sua falta. Num qualquer momento disse-lhe que tinha demasiada sede do seu corpo, da sua presença e da sua vida. Nunca chegou a perceber que aquilo que sentia não era a falta da outra pessoa, mas apenas de si.
Um dia chegou a casa com a sede que apenas a rotina conseguia saciar. Sempre os mesmos beijos vazios, sempre a resignação da mesma carícia. Chamou o seu nome como todos os dias fazia. Apenas o eco da sua voz lhe respondeu rasgando as paredes até chegar a si.
No lugar de um beijo, um bilhete de despedida. Uma condenação. Um grito de libertação. Um não mais do mesmo.
Não houve choro. Não tinha porque haver uma vez que tudo o mais era hábito. Amachucou o papel, como se amachucasse o que passaram juntos e abriu uma garrafa do seu melhor vinho. Retirou dois copos, seguidamente arrumou um deles porque existem hábitos difíceis de quebrar. Um trago e um pensamento, enquanto a ponta dos seus dedos acariciava o rebordo do copo. Um cigarro fugaz e fechou a porta atrás de si. Pela primeira vez sentiu-se inteiro.

Walter